Eu já fui o aluno que abandona curso na aula 4. Quando olhei do outro lado, entendi que quase sempre o problema começa antes da primeira gravação.
Pra estruturar os módulos de um curso antes de gravar, comece pelo resultado que o aluno precisa ter no fim, liste o que ele precisa conseguir fazer pra chegar lá, transforme cada capacidade num módulo e só então divida em aulas. Tudo que não leva ao resultado sai do curso, por mais interessante que seja.
Conteúdo do post
- Por que tanto aluno abandona na aula 4
- Comece pelo resultado que o aluno precisa ter
- Como estruturar os módulos do curso em 6 passos
- Um mini resultado logo no começo
- O mapa do curso na prática
- O que colocar dentro de cada aula
- Antes de gravar, teste o mapa
- Como eu mapeio um curso no Make Systems
- Perguntas frequentes
Eu tenho uma gaveta mental de cursos abandonados.
Comprados com empolgação, tocados até a aula 4, às vezes a 5, e esquecidos sem drama. Por muito tempo achei que era falta de disciplina minha.
Quando precisei aprender a editar vídeo, abri um curso e vi vinte minutos sobre atalho de teclado antes de fechar a aba. O curso começava pelo programa inteiro, e eu só precisava publicar um vídeo específico até sexta. Aprendi em 14 dias, sozinho, indo atrás só do que resolvia aquele vídeo.
Aquilo me ensinou mais sobre montar curso do que qualquer curso sobre montar curso. Este post é sobre como estruturar os módulos de um curso começando pelo mapa, antes de apertar o REC.
Por que tanto aluno abandona na aula 4
O curso típico é organizado do jeito que quem ensina pensa, do fundamento pro avançado e da história do assunto até a parte prática. Faz sentido pra quem já sabe.
Pra quem está aprendendo, as primeiras aulas são teoria sem uso imediato. O aluno chegou com um problema concreto, recebeu uma visão geral, e na aula 4 ainda não resolveu nada. A empolgação acaba antes do primeiro resultado.
Tem ainda a maldição do conhecimento. Quem domina o assunto esquece como é não saber, e grava aula pulando etapas que pra ele são óbvias.
Comece pelo resultado que o aluno precisa ter
Educadores chamam isso de desenho reverso (backward design), um modelo proposto por Grant Wiggins e Jay McTighe. Você parte do que o aluno precisa conseguir fazer no fim e desenha o caminho de trás pra frente, deixando a lista de assuntos pra depois.
É o mesmo que eu faço com funil. Escrevo o destino no canto direito da folha e pergunto "o que precisa acontecer antes disso?". E se você nunca montou um mapa assim, o passo a passo de como fazer mapa mental de um livro serve igual pra curso.
Se você ainda está decidindo o que vender, o passo anterior está em como transformar conhecimento em produto.
Como estruturar os módulos do curso em 6 passos
- Escreva o ponto de chegada. Uma frase com o que o aluno consegue fazer no fim. "Entender marketing" não serve. "Publicar a primeira campanha com orçamento de teste" serve.
- Escreva o ponto de partida. Como o aluno está quando compra, o que ele já sabe e o que tenta sem conseguir.
- Liste as capacidades do meio. O que ele precisa conseguir fazer pra ir de um ponto ao outro. Cada capacidade começa com um verbo: configurar, escrever, calcular, decidir.
- Transforme cada capacidade num módulo e ordene pela dependência, ou seja, pelo que precisa vir antes do quê.
- Divida cada módulo em aulas curtas, cada uma com um mini resultado que o aluno consegue aplicar logo.
- Corte. Tudo que não leva ao ponto de chegada sai. Vira material bônus, vira post, vira outro produto.
O passo 6 dói. O conteúdo que você mais gosta de falar costuma ser o que sobra. E cada aula que sobra é uma chance a mais de o aluno parar.
Um mini resultado logo no começo
A primeira aula precisa entregar alguma coisa que o aluno usa no mesmo dia. Pode ser pequena. Quando eu aprendi a editar vídeo, a primeira vitória foi tirar um pedaço ruim de um clipe, e isso bastou pra eu voltar no dia 2.
A taxonomia de Bloom ajuda a calibrar. Nela, lembrar e entender vêm antes de aplicar, analisar e criar. Mesmo assim, dá pra aplicar algo pequeno já na primeira aula e deixar a teoria entrar quando o aluno sentir falta dela.
O mapa do curso na prática
| Camada | Pergunta | Exemplo |
|---|---|---|
| Resultado | O que o aluno consegue fazer no fim? | Publicar a primeira campanha de teste |
| Capacidades | O que ele precisa saber fazer pra isso? | Definir público, escrever anúncio, ler métrica |
| Módulos | Em que ordem? | Público, depois anúncio, depois métrica |
| Aulas | Qual mini resultado em cada aula? | "Escrevi meu primeiro anúncio" |
| Corte | O que não leva ao resultado? | A história do marketing digital |
O que colocar dentro de cada aula
Com o mapa pronto, cada aula segue a mesma estrutura simples:
- O mini resultado. Logo no começo, o que o aluno vai conseguir fazer quando a aula acabar.
- Por que isso importa. Uma frase ligando a aula ao ponto de chegada do curso.
- A demonstração. Você fazendo, na tela ou na frente da câmera, do começo ao fim.
- O exercício. O aluno repete com o caso dele.
- O próximo passo. Onde a próxima aula continua, a partir do que ele acabou de fazer.
Essa ordem ajuda muito contra o abandono, porque o aluno sempre sabe pra que está assistindo e sai de cada aula com alguma coisa feita.
Antes de gravar, teste o mapa
Mostre o mapa pra duas ou três pessoas do público e peça pra elas apontarem onde se perderiam. As perguntas delas valem mais que qualquer revisão sua, porque vêm de quem ainda não sabe.
Uma variação boa é, em vez de explicar o mapa, pedir pra pessoa desenhar o esqueleto dela primeiro, com o que ela já sabe sobre o assunto. Ela vai errar partes, tudo bem. As perguntas que ela fizer depois mostram exatamente onde o curso precisa ser mais claro.
Como eu mapeio um curso no Make Systems
Monto o mapa do curso no Make Systems antes de escrever qualquer roteiro:
- Um bloco à direita com o ponto de chegada, e um à esquerda com o ponto de partida.
- As capacidades no meio, ligadas por setas na ordem de dependência.
- Embaixo de cada capacidade, os blocos das aulas.
- O que eu cortei vai pra um canto separado do mesmo mapa, pra virar post ou bônus depois.
Aí compartilho o link do mapa com quem vai revisar. A pessoa vê tudo, sem risco de mexer. Quando o curso estiver pronto, o mesmo mapa vira a base do funil de vendas do infoproduto.
Curso bom quase nunca é o que tem mais aula. É o que leva o aluno até o resultado antes de a empolgação acabar.
Perguntas frequentes
Quantas aulas um curso online deve ter?
As necessárias pra chegar no resultado, e nenhuma a mais. Curso longo passa sensação de valor na página de vendas, mas aumenta a chance de abandono. Aulas curtas, cada uma com um mini resultado, costumam segurar mais o aluno do que aulas longas cobrindo muita coisa.
Qual deve ser a duração de cada aula?
Curta o bastante pra entregar uma única coisa. Se a aula ensina duas capacidades, divida em duas. O tamanho certo varia por assunto, mas uma boa regra é o aluno terminar a aula e conseguir aplicar algo antes de começar a próxima.
Preciso de roteiro pra gravar curso?
Precisa pelo menos de uma estrutura por aula: o mini resultado, os passos e o exemplo. Roteiro palavra por palavra deixa a gravação travada pra muita gente. O mapa do curso já resolve a maior parte, porque você sabe o que cada aula precisa entregar.
Como validar um curso antes de gravar tudo?
Venda antes, ou entregue ao vivo pra uma primeira turma pequena. Você grava as aulas conforme dá, vê onde os alunos travam e ajusta o mapa. O curso gravado depois sai bem melhor, e você já sabe que existe gente disposta a pagar por ele.
Escrito por Son Farias




